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A universidade como espaço de construção e difusão de
valores democráticos.
Associado, mas não reduzido ao ponto anterior, defendo que
a universidade precisa ter um papel na construção e dissemi-
nação dos valores que estruturam uma democracia.
Dentre os debates que mencionei lá nos longínquos
anos 1990, havia a questão se a democracia deveria ter uma
substância ou se ela era apenas procedimental.
E tratar de uma questão: um regime democrático tem
um conteúdo ou ele é apenas uma forma, uma máquina insti-
tucional neutra que possibilita aferir qual é a vontade da maio-
ria?
Embora eu esteja de acordo com a tese, algo tautológi-
ca, de que as instituições importam, é preciso dizer que o que
chamamos de “cultura política” é fundamental.
Tive o privilégio de ler Don Quixote depois de adulto
(diferente dos amigos latino americanos de tradição hispâni-
ca que o leem desde pequenos) e terminei a leitura do livro
com a sensação de que Cervantes percebeu, no nascedouro
da modernidade, que um mundo no qual reduzimos nossas
vidas a regras e procedimentos vazios de conteúdos éticos e
afetivos, é um mundo sem uma alma e que aqueles que ainda
a procuram são loucos e ridículos.
Sem uma cultura democrática (além, obviamente do
enfrentamento sério da desigualdade material brutal que as-
sola nossos países), a engenharia institucional dos regimes
democráticos é presa fácil de projetos autoritários como já
nos ensinou a república de Weimar e que agora Steven Le-
vitsky e Daniel Ziblatt nos recolocam no coração daquela que
é considerada por muitos a maior e a mais potente democra-
cia ocidental.
Nossas universidades estruturam não apenas a for-
mação dos profissionais, mas são parte importante da for-
mação do que consideramos uma profissão ou área do con-
hecimento.
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