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O papel da universidade na preservação e aperfeiçoa-
mento das democracias de nossos países.
Sandro Amadeu Cerveira.
Rector de la Universidad Federal de Alfenas.
Uma das primeiras coisas que ouvi quando iniciei o curso de
mestrado em Ciência Política, no final dos anos 1990 foi que,
a partir do final da segunda guerra e até pouco tempo, havia
um certo consenso, nas ciências sociais e mesmo no sen-
so comum ocidental, de que a democracia era a única for-
ma de governo legítima. As experiências autoritárias vinham
de golpes militares e pelo uso da força, com fortes rupturas
institucionais, acompanhadas de torturas e derramamento de
sangue.
Com a onda de redemocratização que marcou os anos
1980, era hora de discutir como aperfeiçoar, ou como alguém
já disse: democratizar a democracia.
O modelo predominante da democracia liberal repre-
sentativa era considerado insuficiente e se fazia necessário
pensar mecanismos e formas de aprofundar a participação
cidadã, fosse através de mecanismos de “democracia direta”
ou formas participativas e comunicativas a la Habermas. E
esse era o bom debate e o bom combate.
Hoje já não é assim. Já não navegamos em águas
tranquilas. A democracia hoje encontra-se ameaçada por me-
canismos mais sutis e nem por isso menos graves.
Talvez o livro que melhor tenha sintetizado o espírito
do tempo que vivemos seja “Como as democracias Morrem”,
de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, que deve muito a Juan
Linz.
De forma muito resumida os autores deste livro, que
logo se tornou um best seller, apresentam a tese de que con-
temporaneamente as democracias (ocidentais) não estão
ameaçadas por golpes militares ou pelo uso ostensivo da
força, como durante a guerra fria.
O perigo vem de eleitos pela via democrática, que a
subvertem por dentro, utilizando para tal suas próprias ins-
tituições constitutivas: controle do judiciário, do legislativo e
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